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Carta III

Eu senti um vento passar por aqui, não um vento qualquer um vento forte frio. Esse vento que corta não só as defesas do meu corpo, mas também as defesas da minha alma, me lembra, inviavelmente você. É estranho, mas é como se você estivesse aqui comigo, por isso te escrevo a um oceano de distância. Eu sei, eu volto logo, talvez chegue antes que essa carta, mas só a possibilidade de entregar esse inesperado vestígio da lembrança do que há entre nós, me dá certa alegria, eu acho que você me entende. 

Certamente você sabe porque o vento me lembra você. Não é por causa do frio somente, mas  porque você é filha de um vento que atravessa o lugar onde nasceu. Fiquei pensando na sua relação com os ventos, com as brisas com o som disso que não podemos pegar, mas que por vezes nos pega por inteiro. Te mando essa carta porque nada do que digo é urgente, talvez menos urgente que nosso amor, que estranha as distâncias desde sempre, mas suporta, na tentativa de acostumar. A nossa urgência é muito própria, é do nosso tempo, é como o vento. 

O vento, que se instala em suas terras, que se agarra nas paredes e nos telhados, querendo permanecer, até que é varrido por sua própria força. A cidade que hoje já não é tão sua, mas você nunca deixou de ser de lá. Esse vento incontrolável, que se arremete contra tudo, na verdade querendo ser tomado por todos, querendo que todos o sintam, querendo deixar recordações impertinentes nos corações solitários. O vento é solitário e por isso aumenta sua força ao chegar na cidade. A sua solidão descontrolável desintegra sua passividade. 

Você foi formada por esse vento. Talvez por isso seja tempestade. Lembro 10 anos atrás quando me contou essa história pela primeira vez, de um vento que chega e se instala antes de um verão que chega no meio do inverno. A história me pareceu tão inverosímel quanto poética, apesar de racional sempre preferi a poesia, por isso acreditei, como até hoje acredito, apesar de nunca tê-lo sentido em minha pele, sinto-o através de você. Eu sei que existe um vento que sopra, irrevogável, que descontrola as ordenações humanas, ai de nós que infiéis ao sopro, permanecemos ordenando as nossas certezas em pacotes de verdade. Sorte a minha eu te encontrar, exemplar perfeito de filha do vento, que prorroga os momentos de certeza na mais correta dúvida de sempre se questionar. Sorte a minha e de nosso amor tão incerto como o momento que esse vento vai passar. As vezes não passa quando esperamos, e nós as vezes esperamos a calmaria, quando tudo que precisamos é da sua tempestade. 

Filha desse vento poético, você, foi o caos que minha vida ordenada precisava. Lembro do verão que você chegou. Lembro dessa estação que guarda essa insitência pela alegria, que nem sempre temos. Lembro que no dia que te vi chorar a primeira vez, ventou dentro de mim. Eu certamente não entendi aquele vento, e porque ele atropelava minhas ideias, porque não permitia que pensasse, como sempre quis pensar, calmamente. Você não é calmaria, e nem poderia, e eu aprendi a viver isso. Aprendi que existe o caos dentro de mim, que por muito tempo rejeitei, precisei do seu vento para desestruturar, minhas sólidas bases. 

Por isso creio no seu vento, não porque veja sua ação concreta na sua cidade, mas porque através de você vivo a certeza de que existe esse vento. Mesmo que nunca tivesse me dito sobre esse vento, talvez adivinhasse. Talvez presumisse, que essa rajada de vento que sinto nessa cidade europeia, durante esse evento que não queria mas tive que vir, guarda alguma recordação de quem você é. Talvez entendesse, e talvez tenha entendido no instante em que me disse, e prossiga entendendo, o que é esse vento. Sinto que seu vento segue soprando, eu sei, e não há nada que eu faça que vá mudar isso, nem quero. Foi por esse vento que me apaixonei, foi por essa desordenação que rompe meus caminhos que me encantei naquele verão incerto. Talvez esse seja um dos intrigantes motivos pelos quais te amo, e continue te amando mesmo depois de todos esses verões. A despeito das idas e vindas, das ideias e das propostas, o inverno que chega tem sempre um verão no meio, e esse verão somos nós depois que seu vento passar. 

Um beijo

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