Eu não ousaria chamar esse pequeno bilhete de carta. Talvez chame somente para te impressionar, embora ache que já não temos necessidade disso. Mas você sabe, nunca fiz nada por necessidade. Escrevo esse pequeno esboço, que posso te mandar um dia, porque lembrei do dia que me mostrou uma foto. Você provavelmente não percebeu, mas achei aquilo fabuloso. A foto era de uma simplicidade incomunicável, eu a olhei por alguns momentos, e olhei depois que você não viu, que ainda olhava. Olhei, aquela foto simples, mas que naquele momento pra mim guardava tanta coisa - não sei porque mantive esse pequeno momento de beleza em segredo. A foto é simples, uma criança, com uma cara que está entre assustada e tentando se impor, você sabe pra mim as vezes é difícil distinguir suas feições, nem sempre sei ao certo o que diz, ou talvez tenha medo de saber. Mas seu rosto - sim era tu aquela menina - transitava entre esses sentimento intangíveis. E eu fiquei paralisado pensando algumas coisas, que considerei, por obviedade, inatingíveis. O restante da foto considero praticamente um poema, que harmonizando com seu rosto que expressa esse combate, que até hoje parece a sua fiel dúvida, formavam um todo, que sigo paralisado quando olho. Você está com um maiô por cima do short, nos pés um par de meias, que me pareceram rosadas e um par de tênis brancos, um modelo esportivo, que até hoje, podemos dizer que paira entre um vintage, um brega ou um simples clichê infantil. Mas nesse momento isso não parecia importar. Você era você em algumas doses exageradas. Não extrapolaria a razão ao dizer que essa foto te representa, acho que mais do que isso, ela diz sobre você, ela constrói você e por isso foi um dos tantos modos que utilizei para te inventar. Eu olhei tantas vezes para essa foto, sem que você saiba, e em todas elas, me causava um assombro, eu temia aquela menina, temia porque temo tudo o que não sei interpretar. Temia porque por mais que eu tentasse eu jamais consegui entender o que ela pensava naquele derradeiro instante. Provavelmente nem você o saiba. Lá pelas tantas depois de observar a foto por alguns instantes percebi que a sua sombra tinha um formato tão imponente, que a sua tentativa facial de se impor jamais chegaria perto. Naquele momento eu amei a sua sombra, como amei certa vez na praia, quando os raios do sol batiam em nós e olhei a sua sombra paralisado, você não percebeu, e eu tive medo de dizer. Por fim , sabe, fiquei pensando quais os percursos tão incompreensíveis te levaram a ser quem você é hoje. Fiquei imaginando que certamente essa menina nem imaginaria a mulher incrivel que surgiria das entranhas dela. Eu fiquei pensando, e me desculpe por viajar tanto, que de certa forma você como a conheço hoje, nem sei quantos anos depois - e isso não importa - é exatamente aquela menina, nem sempre é claro, as vezes você é outras meninas que não estão nessa foto, mas eu gosto dessa imagem, porque nela eu posso te reconhecer. E eu posso desconhecer seus caminhos, aprender a me surpreender com você. Eu sei, você ainda é essa menina de maiô e short. Você é todas as meninas que estavam ali, querendo se rebelar, e talvez ainda não podiam, ou não percebiam que podiam. te amo, com amor, do seu companheiro.....
Sempre quis escrever cartas. Ou melhor, sempre disse que queria escreve-las. Entretanto, nunca o fiz. No máximo alguns emails mais longos, mas nunca fui ao correio, nunca deixei na porta de ninguém, folhas que descreveriam sentimentos, dores, angustias, sensações... Mas a idéia de escreve-las sempre povoou meu imaginário. Não sei porque inicio essa pretensa carta com essa informação, talvez porque não saiba começar uma. Entretanto recebi algumas cartas, recebi sentimentos escritos em papeis, umas melhores do que outras. Mas todas elas eram cartas. Quando será que na minha cabeça escrever cartas pareceu um gesto interessante? Não sei dizer ao certo, tenho dúvidas se realmente acredito, ou como já afirmei, só digo, porque parece bonito dizer. Parece recheado com uma melancolia, uma nostalgia. Sou filho de um tempo intermediário, nascido quase junto com a internet, experimentei o mundo antes e depois dela. Hoje, já com mais de 50 anos, o mundo parece improvável sem a internet, mas isso é ...
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