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CARTA I

Sempre quis escrever cartas. Ou melhor, sempre disse que queria escreve-las. Entretanto, nunca o fiz. No máximo alguns emails mais longos, mas nunca fui ao correio, nunca deixei na porta de ninguém, folhas que descreveriam sentimentos, dores, angustias, sensações... Mas a idéia de escreve-las sempre povoou meu imaginário. Não sei porque inicio essa pretensa carta com essa informação, talvez porque não saiba começar uma. Entretanto recebi algumas cartas, recebi sentimentos escritos em papeis, umas melhores do que outras. Mas todas elas eram cartas. Quando será que na minha cabeça escrever cartas pareceu um gesto interessante? Não sei dizer ao certo, tenho dúvidas se realmente acredito, ou como já afirmei, só digo, porque parece bonito dizer. Parece recheado com uma melancolia, uma nostalgia. Sou filho de um tempo intermediário, nascido quase junto com a internet, experimentei o mundo antes e depois dela. Hoje, já com mais de 50 anos, o mundo parece improvável sem a internet, mas isso é assunto para outra carta.

Porque resolvi escrever essa carta?

Não sei exatamente, mas resolvi escreve-la para tentar descobrir. Como sempre pareço enigmático, você vai dizer, mas nem sempre é de propósito te garanto, embora nem sempre você acredite, e eu sei que não é por mal, só que assim você aprendeu, a nem sempre acreditar, ainda mais em homens. Como já te disse, você está certa. Se fosse eu também não confiaria em nós homens. Embora não ache que eu seja tão somente homem, sou outras coisas, certamente não uma mulher, mas isso também é outro assunto.

O que quero dizer que importa hoje, aqui, embora não saiba quando você vai ler essa carta. É que por motivos que vou tentando entender enquanto escrevo, lembrei de certa noite. Talvez você não se lembre. Embora sinta que exista alguma recordação inglória desse dia. O fatídico dia, foi enquanto, tentávamos começar alguma coisa, que a essa altura não imaginávamos nem de perto o que seria, ou talvez fingíssemos que não imaginássemos. Perdoe o excesso de possibilidades incertas na frase, mas na nossa profissão a incerteza parece o único caminho possível, você sabe. O tal dia, foi se não me engano uma terça feira, falamos tantas vezes desse dia, como uma assombração posteriormente, que só a localização semanal já deveria nos dar arrepios na época, hoje sinto alguma coisa, mas não sei ao certo, escrevo também para tentar descobrir. Lembro que eu estava tão confuso, que você absolutamente não conseguiu me entender. Eu passei pra te encontrar de surpresa, você não esperava, parecia tão feliz de me encontrar, que isso me desconcertou ainda mais. Você nem imaginava que antes de te ver, decorei um discurso mental que te diria olhando nos olhos. Fracassei, e aquele foi um dos meus grandes fracassos oratórios, você deve se lembrar. Eu falava, e me sentia dizendo coisas em outra lingua. Mas não conseguia chegar nem perto do que queria dizer, era como se de alguma forma o que eu te dizia perdia todo sentido. Ao sair da minha boca as palavras perdiam a força, e atingiam negativamente a você, e isso me angustiava, depois de alguma tempo te falei que naquele dia fiquei um pouco tonto, se me levantasse certamente cairia.

Não sei porque me surpreendi quando você, quase chorando, e tentando aparentar alguma irritação me mandou embora, como se aquilo fosse finalmente o encerramento de algo que nem tinha começado. Talvez estivéssemos também aliviados, mas a única coisa que me lembro sentir era uma profunda decepção. Eu tinha falhado no único recurso que tinha confiança, minha capacidade de falar. é curioso a nossa primeira crise ser assim tão impropria e descabida. Um desentendimento absoluto. Parece uma contra-metáfora do que posteriormente nos tornamos. A impressão que tenho é que só assim poderíamos seguir, só com esse desentendimento inicial. Só com esse abismo, poderiamos começar a nos aproximar, talvez com uma cautela descuidada.

Mas assim foi. Acho que agora entendo porque recordei disso. Hoje, antes de te encontrar, nessa cidade indevida, andei por algumas ruas desertas ouvindo uma musica que a anos não ouvia não sei se os 20 anos que nos afastam desse dia. Mas andar por ruas desertas ao som dessa canção, hoje me lembra, que nunca voltei pra casa tão cabisbaixo na vida. Nem quando perdemos um jogo por minha responsabilidade, na época que jogava futebol. Lembro que o sentimento de decepção profunda, não era só porque não consegui falar, mas porque o motivo de tudo aquilo era meu medo. Tinha, de certa forma medo, não só de te amar, mas de como poderia te amar, tinha medo de não cumpri as expectativas desse amor incerto, que ainda não tinha nenhuma clareza do que poderia ser (não que hoje tenha). O meu medo me fez falar, e me fez não conseguir falar. Parece contraditório, mas é a única maneira de te explicar o que você já sabe. O medo de sentir o que posteriormente aprendemos a sentir, parecia me massacrar, e eu tinha medo. Eu tinha medo. E ainda tenho, mas aprendi a lidar com ele, talvez de maneira mais responsável.

Depois você me disse que me viu ir embora pela janela. Disse que cortou seu coração. Disse que chorou porque não entendia o que eu quis dizer. Se te alivia, nem eu entendi, e escrevo ainda hoje, mais de 20 anos depois, para tentar entender o que quis dizer aquela noite. Ainda não entendo, mas parece que hoje é um bom motivo para te escrever, finalmente essa carta.

Talvez por covardia, ou excesso de coragem, deixarei-a embaixo do seu travesseiro, que levantei enquanto você dormia profundamente, e eu te olhava mais uma vez. Escrevi essa carta porque não consegui dormir depois dessa noite, mesmo depois de todos esses anos, não consigo me acostumar com a estranheza do nosso amor. Talvez você demore algumas noite pra percebe-la. Talvez no dia que for trocar a roupa de cama. Não sei, e me interessa não saber. Me interessa essa expectativa, em outros tempo morreria de ansiedade. Não hoje. Você, com os anos de distância que tivemos, me ajudou a lidar com essa ansiedade que me cortava por inteiro. Hoje sei que talvez nos encontremos logo de novo, talvez não. Mas não é isso que importa. O que parece importar, é que os abismos que se foram impondo durante esses anos, foram sempre sendo demolidos por nossa vontade de estar junto. As vezes. Quando ardemos de vontade. E muitas vezes isso dura dias, você sabe.

A verdade é que agora voltaremos a nossas vida. Vou viajar por um tempo, e agradeço que você não levante pra se despedir, hoje dispensamos essas formalidades. Não viveremos aquela ansiedade daquele tempo que não sabíamos se uma distancia temporal acabaria com o que sentimos. Sentiremos coisas novas, assim como sempre sentimos. Calaremos algumas angustias, mesmo tentando ser sinceros. Seguiremos tateando o inaudito, percebendo as diferentes faces desse amor, que nunca é o mesmo.

Viajo porque preciso, (se) volto (é) porque te amo.

Um beijo

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