Ontem pareceu um dia um pouco absurdo. Dias assim, parecem exigir escolhas. Eu te escrevo isso, que fatidicamente chamarei de carta, na vã esperança que compreenda. Não sei até que ponto consigo entender o que aconteceu. Olhar o seu sorriso diante do mar me pareceu uma cena cinematográfica. O momento que nos abraçamos, ainda um pouco contidos, parecia condensar tanta coisa, que agora, ainda, é difícil dizer. A quanto tempo nos conhecemos? Na maioria das vezes sinto que te conheço a mais tempo do que de fato nos conhecemos. Não quero exatamente voltar ao dia em que fomos apresentados, mas hoje é incontornável esse retorno. Você nem imagina, mas já conhecia o seu sorriso de uma foto. De alguma forma já tinha me chamado atenção, não sei o que, nem como, mas aquela foto, ou melhor, você naquela foto. Não sei explicar, e todos esses sentimentos recentes, aparentemente inexplorados, são de todo modo inexplicáveis, e qualquer tentativa, temo, seria só uma forma de adiar a incompreensão. Incompreensão essa que parece instalada em nossa relação. As vezes sinto que nos incompreendemos um pouco, e essa ausência de entendimento, estranhamente age como uma força que nos aproxima. Nossos tempos, arriscaria dizer, são absolutos e radicais em sua dessemelhança. Nossa aproximação e afastamento, parece um jogo de azar, que longe de qualquer técnica, se assemelha a qualquer coisa incerta. Mas ainda tenho medo de arriscar qualquer coisa, e nomear aquilo sentimos, ou pelo menos o que sinto, agora parece tão impossível quanto atraente. Espero....
Para guardar essa ansiedade em um lugar onde possa refugiar-me, seria preciso omitir um pouco do que eu sou. E isso, nesse momento para mim seria como decretar o fim de qualquer possibilidade. Tenho tantos medos estampados sobre meu corpo. Mas foi tão brutal a forma como nos beijamos ontem pela primeira vez, que ficaria sem palavras se eu não me exigisse escrever essa carta. Eu cheguei em casa ainda atordoado, tive que sair as pressas para o compromisso que fui, confesso, contrariado. Queria ter subido, conhecido sua casa, de acordo com o convite que me fez. Mas parece que meu medo aliado a pretensa responsabilidade que guardo, impediu qualquer possibilidade, me arrependo.
É difícil acumular esses medos aqui dentro. Se um dia continuarmos isso, que ainda não sei do que posso chamar, tentarei te falar sobre esses medos que estão aqui, talvez fracasse, mas a tentativa me parece uma boa forma de enfrentar meus fantasmas. Por agora, o que consigo pensar sobre esses medos é que parecem originar-se de uma raiz comum. Mas depois de nascerem tomam seus próprios rumos. O nascimento comum é minha insegurança, o destino desses filhos ingratos ainda não consigo dizer, mas sinto me cortarem toda vez que suspiro pensando em você - e não foram poucas vezes desde ontem. Desculpe essa confusão em forma de palavras, mas decidir escrever (mas não te entregar), na ingrata tentativa de visualizar o que estou sentido. Não sei se te parece, mas para mim parece um mapa de como se perder num labirinto. E, talvez seja justamente isso que sejamos, um para o outro, um labirinto....
Mas de todas as coisas que poderia falar do que aconteceu ontem, o que me pareceu absolutamente mais incompreensível foi o jeito que me olhou antes de me beijar. Desculpe estou desacostumados a esses olhares. Quando conversamos sobre a possibilidade de nos ausentarmos de nossas solidões acompanhados, um do outro, imaginei outras coisas. Confesso reprimi um sentimento um pouco confuso e demasiadamente ligeiro para o principio de conversa, abafei-o com medo de fazer, mas uma vez um papel, que me parece ridículo, dessas paixões abruptas. Ultimamente têm sido o destino de todas as possibilidades de amores: serem reprimidas antes de nascerem. Mas a forma como você me olhou parece que desestabilizou a minha crença nesse sistema. Juro que por um segundo queria te dizer que te amo, calma foi um instante de delírio, estava te olhando profundamente, e acho que não percebeu.
Talvez tão marcante como o seu olhar ou a indecente vontade que me beijou em público, seja a forma como andamos lado-a-lado. Quando você, despretensiosamente pegou na minha mão, eu juro eu tremi, pedi a deus para que você não percebesse. Porque eu estava tão nervoso, me parece até agora um enigma indecifrável. Na verdade toda essa situação me lembra um enigma. Ao mesmo tempo que quero decifrar-te, desejo, confesso, demorar em decifrar. Como se a de alguma maneira, isso ainda fosse a nossa forma de nos aproximarmos, não a cautela, mas a incompreensão. Sinto, por antecipação que se te entender, logo nos afastaremos. Disso também tenho medo.
De todas as minhas inseguranças, a que quis deixar para o final, talvez por vontade de não dize-la, é o medo, absoluto e absurdo de não ser o que você esperava. O medo da decepção prévia. Ou a decepção posterior. Talvez por gratuitamente gostar de você, tenho medo. Eu não queria, mas esse sentimento parece, as vezes, se apoderar de mim. Tenho medo de errar na dose. De que esses nossos desencontros temporais, acabem nos metendo em um labirinto inglório. Tenho medo de não ver mais aquele olhar com o qual me olhou, e que até agora me deixou sem rumo. Tenho medo das vontade que você me causa, e tenho medo das coragens que me provoca. Desaprendi, pelas amarguras que julguei viver, a desarmar minhas defesas. Juro que me pareceu impressionante como você zombou delas, com aquele olhar, que não esquecerei tão cedo. Ainda não sei muito bem porque digo essas coisas, nem se te enviarei essa carta.
Entretanto, entre todas essas coisas, obrigado pelo seu sorriso, e pela forma que você me comoveu a tocar minha mão.
Um beijo,
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