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Carta IV - ou um bilhete escondido atrás da foto

Eu não ousaria chamar esse pequeno bilhete de carta. Talvez chame somente para te impressionar, embora ache que já não temos necessidade disso. Mas você sabe, nunca fiz nada por necessidade. Escrevo esse pequeno esboço, que posso te mandar um dia, porque lembrei do dia que me mostrou uma foto. Você provavelmente não percebeu, mas achei aquilo fabuloso. A foto era de uma simplicidade incomunicável, eu a olhei por alguns momentos, e olhei depois que você não viu, que ainda olhava. Olhei, aquela foto simples, mas que naquele momento pra mim guardava tanta coisa - não sei porque mantive esse pequeno momento de beleza em segredo. A foto é simples, uma criança, com uma cara que está entre assustada e tentando se impor, você sabe pra mim as vezes é difícil distinguir suas feições, nem sempre sei ao certo o que diz, ou talvez tenha medo de saber. Mas seu rosto - sim era tu aquela menina - transitava entre esses sentimento intangíveis. E eu fiquei paralisado pensando algumas coisas, que conside...
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Carta III

Eu senti um vento passar por aqui, não um vento qualquer um vento forte frio. Esse vento que corta não só as defesas do meu corpo, mas também as defesas da minha alma, me lembra, inviavelmente você. É estranho, mas é como se você estivesse aqui comigo, por isso te escrevo a um oceano de distância. Eu sei, eu volto logo, talvez chegue antes que essa carta, mas só a possibilidade de entregar esse inesperado vestígio da lembrança do que há entre nós, me dá certa alegria, eu acho que você me entende.  Certamente você sabe porque o vento me lembra você. Não é por causa do frio somente, mas  porque você é filha de um vento que atravessa o lugar onde nasceu. Fiquei pensando na sua relação com os ventos, com as brisas com o som disso que não podemos pegar, mas que por vezes nos pega por inteiro. Te mando essa carta porque nada do que digo é urgente, talvez menos urgente que nosso amor, que estranha as distâncias desde sempre, mas suporta, na tentativa de acostumar. A nossa urgência...

Carta II

Ontem pareceu um dia um pouco absurdo. Dias assim, parecem exigir escolhas. Eu te escrevo isso, que fatidicamente chamarei de carta, na vã esperança que compreenda. Não sei até que ponto consigo entender o que aconteceu. Olhar o seu sorriso diante do mar me pareceu uma cena cinematográfica. O momento que nos abraçamos, ainda um pouco contidos, parecia condensar tanta coisa, que agora, ainda, é difícil dizer.  A quanto tempo nos conhecemos? Na maioria das vezes sinto que te conheço a mais tempo do que de fato nos conhecemos. Não quero exatamente voltar ao dia em que fomos apresentados, mas hoje é incontornável esse retorno. Você nem imagina, mas já conhecia o seu sorriso de uma foto. De alguma forma já tinha me chamado atenção, não sei o que, nem como, mas aquela foto, ou melhor, você naquela foto. Não sei explicar, e todos esses sentimentos recentes, aparentemente inexplorados, são de todo modo inexplicáveis, e qualquer tentativa, temo, seria só uma forma de adiar a incompreensão. ...

CARTA I

Sempre quis escrever cartas. Ou melhor, sempre disse que queria escreve-las. Entretanto, nunca o fiz. No máximo alguns emails mais longos, mas nunca fui ao correio, nunca deixei na porta de ninguém, folhas que descreveriam sentimentos, dores, angustias, sensações... Mas a idéia de escreve-las sempre povoou meu imaginário. Não sei porque inicio essa pretensa carta com essa informação, talvez porque não saiba começar uma. Entretanto recebi algumas cartas, recebi sentimentos escritos em papeis, umas melhores do que outras. Mas todas elas eram cartas. Quando será que na minha cabeça escrever cartas pareceu um gesto interessante? Não sei dizer ao certo, tenho dúvidas se realmente acredito, ou como já afirmei, só digo, porque parece bonito dizer. Parece recheado com uma melancolia, uma nostalgia. Sou filho de um tempo intermediário, nascido quase junto com a internet, experimentei o mundo antes e depois dela. Hoje, já com mais de 50 anos, o mundo parece improvável sem a internet, mas isso é ...